8.6.06

welch e scolari

indignação, foi aquilo que muitas pessoas sentiram ao ver e ouvir o senhor welch dizer que devíamos ficar envergonhados pelo modo como somos vistos no estrangeiro. Os nossos empresários ouviram-no, beberam-lhe as palavras com humildade, colheram as lições, e o cidadão comum voltou a tropeçar, nas parangonas dos jornais, em algo que não é novidade, mas que, dito assim, por um gestor internacional, adquiriu o peso de uma verdade inelutável. é sempre chocante chegar alguém à nossa terra e proclamar a nossa rotunda nulidade. ainda por cima, porque não é nada de novo, toda a gente sabe que os portugueses parecem pairar sobre si mesmos num sonambulismo abúlico, dando a sensação de transigência ao destino, como que nutrindo-se da nostalgia do pai de mão pesada mas amiga, que vai chegar e pô-los na linha. o senhor welch é alguém que fez o pedregoso chão americano brotar pão e rosas, mas não sabe que temos uma história que nos marca os genes e nos faz gente peculiar. ele pode passear-se pelo mundo como quem se passeia pelo seu quintal e dizer o que lhe apetece, mas, como quase todas as pessoas e países de sucesso, tem telhados de vidro, convenientes falhas de memória, vergonhas que a opulência cobre com um manto altaneiro. o meu sapateiro, que é empresário em nome individual de sucesso relativo, tem uma teoria sobre as aleivosias do welch: acha que ele disse aquilo depois de uma almoçarada onde lhe meteram à frente um tinto alentejano com uns segredos de porco preto. daí a soltura verbal. depois, mudando de página, como quem diz «vamos ao que interessa», vaticinou o falhanço do scolari no mundial, a quem apelidou de capataz espertalhão que cometeu um erro capital: a chamada de figo. o figo não quis a canseira da qualificação, as viagens para letónia, para a eslováquia, e voltou para apanhar a carne da perna, a fase final, com a braçadeira de capitão. ou seja, admitiu o filho pródigo depois de ele ter protagonizado uma saída amuada no fim do europeu. não há pais rígidos totalmente esclarecidos nem pais moles totalmente obnubilados. o caminho de portugal, com uma história recente de menoridade ditada por pais austeros e aceite por filhos infelizes, é um caminho lento e sinuoso, muitas vezes exasperante. o ânimo de um povo não se mede pelas bandeiras nas janelas, ou pelo sentimento de vergonha pelo que se diz de nós no estrangeiro. o meu sapateiro acha que o senhor welch devia sentir vergonha por haver um português que vê os americanos como uns fazendeiros que, para ganhar um dólar, até vendem a mãe se for preciso. e que os americanos, por exemplo, contrataram criminosos nazis depois da segunda guerra mundial para ajudarem a cia a combater os comunistas. que diria o welch do que pensa o meu sapateiro?
carlos tê

1 Comments:

Blogger Ivan Grozny said...

Infelizmente o que o teu sapateiro diz importa pouco e o que o Sr. Welch diz importa muito...

5:25 da tarde  

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