13.4.06

jornalices

o assunto é caro ao bode. crendo ser esta uma boa forma de o expiar.
comecei o dia de ontem a ser questionado, por jornalista amigo, sobre a decisão do supremo tribunal de justiça (stj) não condenar uma senhora por eventuais (não provados) maus tratos a crianças deficientes. “como é possível o stj decidir uma coisa destas”, dizia indignado. não respondi. não conheço (nem ninguém conhece a não ser os próprios) todos os contornos do processo.
acabei o dia a ouvir, na sic notícias, um julgamento sumário, pleno de exclamações e interrogações, à decisão do stj. era gritante a ignorância da dita jornalista sobre o andamento do processo.
esta massificação informativa em torno da justiça, em que todos somos assim uma espécie de “treinadores de bancada” e opinamos sobre o que na maior parte das vezes desconhecemos, tem a grande vantagem de servir de denúncia às propaladas injustiças, aos abusos, às demoras, ao estado decadente de alguns tribunais, à incompetência de alguns magistrados, advogados e funcionários.
mas tem a outra face, mais circense da informação, onde uma impreparada profissional (sê-lo-á?) da informação se arroga no direito de, em dois minutos de peça, colocar em crise uma decisão do stj (proferida por três juizes) que já vinha da relação (mais três intervenientes julgadores) que, por sua vez, já vinha da primeira instância (mais três julgadores).
a justiça televisiva começa a ter os seus gabriel alves e josé eduardos. o problema é tratar-se de um assunto um tudo nada mais sério que as futebolices que nos apaixonam.
nuno magalhães

2 Comments:

Blogger bagomes said...

Em situações como a relatada, é sempre ingrato estar na posição quer de quem conhece bem os meandros da “especialidade”, quer de quem tem de, por ofício, fazer um esboço dela em 2 minutos. Fica o esclarecimento de uma das partes, ainda que quase quase tenha chegado a cometer o mesmo erro que denunciava. Valeu-lhe um "sê-lo-á" ali no meio. Era interessante ouvir ou ler alguém da outra parte, tendo a acreditar que algo se ganha no cruzamento de julgamentos mútuos.

1:21 da tarde  
Blogger trazmumbalde said...

Mesmo estando completamente fora do mundo da justiça, e portanto a minha opinião ser a de mero seguidor (nem sempre atento) das noticias que vou lendo ou ouvindo, o que me pareceu um caso escandaloso ao início a avaliar pelas headlines dos noticiários, parece-me agora mais um caso de fumo sem fogo, ou quando muito um exagero na parte 'sensacionalista' da notícia deixando de lado o que quanto a mim é o mais importante. Afinal a senhora foi condenada a 18 meses de prisão com pena suspensa por um ano, apenas foi ilibada das acusações menores. E pouco destaque foi dado ao facto de que a senhora tinha sido contratada para um trabalho para o qual não tinha formação e ainda assim estava sobrecarregada.
Não me parece que a decisão do STJ tenha sido má. Má parece-me a cobertura que a comunicação social deu da mesma.

6:02 da tarde  

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